domingo, 21 de junho de 2009

Histórias de Uma Bruxa



Márcia Frazão,O gozo das Feiticeiras:p.9-13

Desde que assumi publicamente minha condição de bruxa, tenho sido constantemente solicitada para realizar formadoras de bruxas.Para mim fica completamente estranho me imaginar dando aulas de bruxaria, assim como uma professora ensina matemática e uma aluno. Toda bruxa verdadeira sabe perfeitamente que a transmissão dos ensinamentos da arte é muito mais sutil! Ela sabe perfeitamente que nada adiantam as técnicas de ensino que o homem civilizado desenvolveu, pois nestas o conhecimento é passado sempre de forma linear, como se o aluno fosse alguém que tivesse comprado uma passagem de ônibus em uma rodoviária qualquer.Sim, essa é a verdadeira imagem do conhecimento em sua maneira usual de ser transmitido.

Lembro de que quando era criança, possuía uma extrema dificuldade em memorizar as temidas tabuadas de matemática, vivendo constantemente grudada ao velho livrinho onde, mecanicamente, passava palos cálculos de dois, depois pelos de três e daí por diante.
Até que um dia, minha avó Vitalina, já cansada de me ver zanzando pela casa a repetir monotonamente dois vezes dois igual a quatro, divertida me perguntou se eu já havia comprado a passagem para a cidade que gostaria de ir.Como não entendia o que ela queria me dizer com aquela estranha pergunta, deixei por momentos o desgastado livrinho e me sentei ao seu lado, enquanto ela se dedicava a catar feijão.

Seus gestos eram extremamente preciosos, como se houvesse um enorme sentido a impulsioná-la, talvez o mesmo que havia impulsionado os heróis dos meus livros de história. Por momentos esqueci por que havia me colocado ali do seu lado e segui hipnotizada pelos movimentos de suas mãos, o ir e vir dos feijões rolando por cima da velha mesa da cozinha, as pequeninas pedras que iam sendo depositadas em um pequeno montinho...Até que me dei conta de que seus gestos, aliados com aquele cenário de grãos, pedrinhas e pequenos galhos, formavam uma tabuada viva, magicamente repleta de sentido.

Não contendo a emoção desta incrível descoberta, comecei a falar em voz alta todos os resultados das operações que minha avó estava realizando em sua velha mesa.Até que ela, cansada do barulho que eu fazia em seus ouvidos, me disse: “Agora você não precisa mais ficar na rodoviária esperando o ônobus, pois a cidade que queria visitar já está dentro de você.”

Naquele dia compreendi que todo e qualquer conhecimento deve conter dentro de si o sopro sagrado da vida, e de que nada ele adianta se estiver distanciado de nosso sentido interno, pois , quando isto acontece, tornamo-nos somente usuários de um ônibus que nos levará sempre a uma cidade, onde seremos eternamente turistas sem visto de permanência...

(...) Os encinamentos da Arte deverão sempre espelhar a ternura da mãe, que pacientemente ensina os primeiros passos a seu filho.Deverão conter todo o encanto das velhas histórias contadas por nossas avós, e no final de tudo se constatará que todos fazemos parte dessa encantado enredo docemente soprado em nossos ouvidos mortais...

Nenhum comentário:

Postar um comentário