sábado, 2 de março de 2013

O Pacote Expiatório

Durante dois anos eu estudei esse livro que recomendo a todas as mulheres, hoje volto com vocês a postar os textos que leio, terminando o livro e postando o trecho que pra mim dará força a todas as mulheres a vencer e se sentirem guerreiras em vez de perdidas, tristes ou lamentantes. Somos sobreviventes das maselas que nos ocorreram, e devemos ter orgulho de ainda nos manter fortes e poderosas! (ass: ludmilla mattos p. de souza)
Com vocês trecho do livro : MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS DE CLARISSA PINKOLA, CAP13" MARCAS DE COMBATE: A PARTICIPAÇÃO NO CLÃ DAS CICATRIZES".
 
Às vezes no meu trabalho com mulheres mostro-lhes como fazer um capote expiatório longo, de tecido ou de algum outro material. Um capote expiatório é um casaco que descreve em detalhes, pintados ou escritos e com todo tipo de coisas costuradas ou pregadas nele, os insultos que a mulher sofreu na sua vida, todas as ofensas, calúnias, traumas, feridas, cicatrizes. É a sua afirmação da experiência da mulher de ser transformada em bode expiatório. Às vezes demoramos apenas um dia, ou dois para fazer um casaco desses; outras vezes demoramos meses. Ele é de extrema utilidade para a descrição de todas as mágoas, baques e golpes da vida da mulher.
À princípio, fiz um capote expiatório para mim mesma. Ele logo ficou tão pesado que precisou de um cortejo de musas para carregar a cauda. À minha intenção era a de fazer esse casaco e mais tarde, depois de ter posto todo esse lixo psíquico num único objeto psíquico, eu poderia dispersar uma parte da minha antiga fragilidade ao incinerá-lo. O que aconteceu, porém, foi que pendurei o casaco no teto do corredor e cada vez que passava por ele, em vez de me sentir mal, me sentia bem. Descobri que admirava os ovarios da mulher que podia usar um casaco daqueles e ainda estar andando inabalável, cantando, criando e abanando o rabo.
Descobri que isso também se aplicava às mulheres com que eu trabalhava. Elas nunca queriam destruir seus capotes expiatórios depois de prontos. Elas queriam guardá-los para sempre, quanto mais repulsivos e sangrentos, melhor. Às vezes, também os chamamos de mantos de combate pois eles são prova da resistência, das derrotas e das vitórias das mulheres como indivíduos e das suas parentas.
É também uma boa idéia que as mulheres contassem sua idade não pelos anos mas pelas marcas de combate. "Qual é a sua idade?" perguntam-me às vezes. "Tenho dezessete marcas de combate", respondo. Geralmente as pessoas não se retraem, mas começam alegremente a medir sua idade pelas marcas de combate.
Como o povo lakota pintava hieróglifos em peles de animais para registrar os acontecimentos do inverno, e os povoai náuatle, maia e egípcio possuíam seus códices de registro dos grandes eventos da tribo, das guerras, das vitórias, as mulheres têm seus capotes expiatórios, seus mantos de combate. Fico me perguntando o que nossas netas e bisnetas irão pensar das nossas vidas assim registradas. Espero que tudo isso precise ser explicado a elas.
Que não reste nenhuma dúvida a respeito, pois você o conquistou com as difíceis opções da sua vida. Se alguém lhe perguntar sua nacionalidade, sua origem étnica ou sua linhagem, dê um sorriso enigmático.
Responda: "Clã das Cicatrizes".
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